Via de parto

Texto de autoria da Dra. Andressa Biscaro.

Já fiz mais de 1.500 partos. Sim, eu anoto um por um... data, hora, via de parto, nome da mãe e do bebê. Tenho um ENORME carinho por isso!

Devo ter vivido nos poucos anos que exerço a obstetrícia a maioria das "situações" descritas da capa até o fim do livro Rezende, tratado de obstetrícia.

Já morei em SC, PR e no RJ e tive oportunidade de aprender nas melhores escolas do país e com grandes mestres. 

Fiz 3 anos de residência médica na Maternidade Carmela Dutra em Florianópolis/SC, 1 ano de ultrassonografia na Maternidade Escola da UFRJ/RJ e 2 anos de mestrado em saúde materno-infantil na UFF/Niterói/RJ. Somados à graduação, totalizam-se 12 anos de estudo.
Atualmente trabalho no consultório, faço plantão nos dois maiores hospitais da cidade e sou professora do curso de medicina da UNESC, Criciúma/SC.
Acho que posso falar "alguma coisa" sobre via de parto... sim, VIA DE PARTO!
Não gosto do termo parto HUMANIZADO porque se é o nascimento de um ser humano, o termo HUMANIZADO é (ou deveria ser) dispensável, concordam? Na prática não parece tão simples...

Cada vez mais se ouve falar em humanização do parto e "violência obstétrica", esta última, quase sempre atribuída a classe médica.
Pois bem... Estamos vivendo uma espécie de "cabo de guerra obstétrico" aonde cada "profissional" tenta puxar de modo mais forte a corda para o seu lado. Talvez por disputa de mercado (sim, há dinheiro envolvido nisso!) ou quem sabe pelo pensamento mágico da infância que algumas pessoas carregam pra sempre. Frente ao extremismos das partes e em meio aos "puxa pra lá - puxa pra cá", saímos todos perdendo.
A vida é, por si só e desde o princípio, algo que não temos total controle. Nem tudo sai exatamente como planejamos e com o nascimento não é diferente!

É ilusão achar que o parto vaginal sempre dá certo. Cesariana? Idem! São raras as indicações absolutas de cesariana e via de regra (ou de natureza) toda mulher é capaz de ter parto vaginal. Ambos podem e devem ser planejados, sonhados, desejados, idealizados... afinal, é um dos momentos mais importantes da vida de uma família!

Imaginem uma viagem de férias planejada há aproximadamente 10 meses (tempo estimado de gestação). No dia da partida ocorre um imprevisto e todos da família perdem o vôo. O primeiro sentimento é frustração, raiva, decepção... engole-se o choro ou o colocamos pra fora mesmo! O avião decola e quase chegando no destino, prestes a pousar, uma falha mecânica provoca sua queda. Todos morrem, menos você e sua família, que graças a Deus não embarcaram. Momento de tristeza pelas vidas perdidas mas também de alívio e agradecimento por aquele imprevisto que os atrasou... aquele sinal que Deus mandou para que vocês não entrassem naquele avião!

O nascimento funciona exatamente assim. Você planeja a viagem (gestação) entra no avião (parto/cesárea) e espera que tudo dê certo. A maioria das viagens começa e termina bem. Porém, em outras tantas ocorrem turbulências e imprevistos que nos impedem de seguir adiante e, às vezes, o avião cai.

Graças a evolução da assistência obstétrica podemos na grande maioria dos casos intervir antes do "avião" cair e salvar a mãe e o bebê. Portanto, se houver "pane no sistema" somente intervenções médicas como episiotomia, uso de fórcipe de alívio ou vácuo extrator e a tão criticada cesariana, procedimentos atualmente denominados "violência obstétrica" por alguns serão capazes de salvar o seu filho (a).

Concluindo:
1) Não há parto seguro sem médico obstetra, pediatra e anestesista;
2) Nascimento seguro é no hospital, com equipe completa e centro cirúrgico à disposição para eventuais (e reais... elas existem e acontecem num piscar de olhos!) emergências. No Brasil, qualquer outro lugar é inadequado e inadmissível. Quem opta por qualquer situação diferente disso não conta com um plano B e coloca a sua própria vida e a de um ser ainda incapaz em risco.
Cabe a nós, profissionais da área da saúde, orientar sobre os riscos e benefícios de ambas as vias de parto sem criar falsas expectativas sobre uma ou outra, acabar com esse "cabo de guerra" e não deixar o "avião" cair.
Cabe a cada gestante e sua família planejar a sua "viagem" e optar pelo que melhor se encaixa na realidade do seu momento mágico.
Cabe a quem não tem nada a ver com esta escolha, respeitar, respeitar e respeitar!
Quando a escolha é consciente, as expectativas não atingidas não evoluem para frustrações ou sentimentos de culpa mas sim para o único sentimento que deve prevalecer nesse momento... a alegria de um nascimento seguro e saudável no qual mamãe e bebê passam bem.

Portanto gestantes, questionem-se sempre:
1) Quem é a pessoa que está falando sobre via de parto e qual a sua formação? Quanto tempo e aonde ela estudou?
2) Essa pessoa já fez partos ou cesarianas ou já resolveu alguma complicação subsequente aos dois?
3) Qual a função, as habilidades e as limitações de cada profissional? Obstetra, pediatra, anestesista, doulas, técnicos (as) de enfermagem, enfermeiros (as)...
4) O que é mais importante para você e sua família, a via de parto ou um nascimento seguro e saudável?
E, POR FAVOR, tenham cuidado com pessoas que iniciam frases com "nós, humanistas..." pq estas, em geral, fazem parte de facções fanáticas, extremistas e sem limites.


Por fim...
Sou extremamente a favor do parto normal e faço muitos.
Sou extremamente a favor da cesariana e faço muitas.
EU RESPEITO a gestante e procuro HUMANIZAR todos os nascimentos, independente da via de parto. Já vi mães e bebês de todos os tipos nascerem por ambas as vias! Humanização é, acima de qualquer coisa, compreender que somos seres completamente diferentes uns dos outros e que não há uma verdade absoluta sobre tudo. Essa é a minha filosofia e o meu conceito sobre exercer obstetrícia com qualidade. Sem mais e até o próximo baby que a dona cegonha carregar pra tia Dessa!