Lágrimas sem choro: uma missão humanitaria no país africano

Existem momentos onde tudo o que se faz em prol do próximo parece ser pouco ou mesmo insuficiente. São instantes de reflexões em nossas vidas, quando surge a necessidade e o desejo, quase fisiológico, de algo mais; de algo além da nossa capacidade crítica de criar oportunidades e condições de ajudarmos um outro alguém.

Este momento existiu e há quase um ano atrás foi suprido pelo inesperado convide de fazer parte de uma missão humanitária, no distante país africano chamado Benin.

Mas que país seria este? Senti-me até constrangido quando, por ignorância, descobri somente em minhas pesquisas, que este teria sido o berço de nossa história, porém não registrado nos livros escolares. Localizado no sudoeste do continente negro, de onde vieram milhares dos escravos que ajudaram a construir estrutural e culturalmente o Brasil, era este país, o foco da missão que há 5 anos exerce um trabalho voluntário e surpreendente, tendo como pano de fundo a assistência de saúde. E se saúde é a ausência de doença ou se felicidade é a ausência de problemas físicos e mentais, fica difícil imaginar que um dia ela pode ser alcançada num lugar esquecido do mundo, em um lugar carente de tudo, inclusive de dignidade, pelas opressões sofridas por nossos antepassados.

Eis que enfim, lá estou. Como médico, ginecologista e obstetra, imaginei como eu poderia ajudar. Como meu conhecimento técnico poderia ser útil onde o acesso à saúde em si é extremamente precário e os recursos beiram a inexistência? Como ser humano, via-me na insegurança da língua que não compreenderia e na minha falta de capacidade de estender a mão a outros almas carentes que poderiam não aceitar meu gesto de oferecimento de atenção.

Quando se ouve falar em miséria, em falta de tudo, em condições abaixo da linha da pobreza, isso nos remete a conceitos teóricos que poucos têm a oportunidade de ver de perto. Estas "inqualidades" existem todas juntas no Benin. O hospital La Croix, em Zinvié, foi o palco desta aventura de doação e aprendizado. 

Lá, diferentemente do resto da nossa realidade, o paciente (muito mais paciente que os nossos), agradece a oportunidade de ser ajudado. Com educação, cordialmente cumprimenta o homem branco, visitante de outro mundo, pois nos missionários vê a oportunidade de ter seus males resolvidos. Os sons do dialeto local em nada prejudicam a comunicação do olhar, do balançar da cabeça em saudação, da lágrima de dor sem o característico som de um choro contido. E por falar em dor, o sofrimento encriptado na carne e na alma de seres ainda viventes no primitivismo, a encaram com naturalidade, como algo condicionado ao processo de cura. Para os enfermos, a dor é obrigatória, mas compreendem que o sofrimento é, e sempre será, uma escolha. E escolher sofrer não cabe mais pois não há parâmetros para se conhecer opções melhores. A falta de saneamento, asseio pessoal, educação, autoestima, perspectiva de vida ou mesmo de integridade diante da opressão que a própria vida lhes impôs, não os impede de sorrir. Crianças sem roupa, de pés no chão e na lama da chuva, com a pele lisa e brilhante num tom negro perolado, sorriem com seus dentes brancos e correm atrás do yovo (homem branco) que passa por seu território, sua aldeia, seu village. Acenando e correndo atrás dos missionários, nos recebem com a inocência das crianças que não conhecem sua história, não sabem o que nossos antepassados fizeram aos delas. Abraços gratuitos e apertos de mão carinhosos são marcas dos que passam pelas ruas sem nunca ter nos visto. Outros correm e choram de medo sem saber onde se proteger. As lágrimas caem sem choro no momento da dor engolida num procedimento médico. A rigidez no trato com os enfermos é marca registrada entre os cuidadores locais. O visitante missionário traz um carinho nas palavras e no olhar, e com gestos de atenção e o toque na pele marcada pela vida, são surpreendidos pela desconfiança. Os beninenses não estão acostumados com nossa maneira de lidar. Estão acostumados a não gemer, não chorar, não demonstrar a dor.

No hospital, não há roupas de cama, não há banho a não ser pela caneca de água retirada de um poço artesiano. Não há alimentos. O jejum para um procedimento cirúrgico muitas vezes se prolonga pelos dias de pós operatório, não porque foram prescritos, mas por simples falta de comida. Os curativos não são trocados por não haver disponibilidade ou conhecimento para tal. Mantê-los abertos, como as recomendações técnicas, pode acarretar ainda mais riscos pela terra que os envolve o corpo ou pelos insetos que os rodeiam.

E por falar em complicações, surpreende a baixa incidência destas ocorrências. Seria de se esperar absurdos de infecções, hemorragias ou mesmo a dor pós operatória. Mas a imunidade desenvolvida e a ajuda dos anjos que os guiam, tornam tudo mais fácil.... ou ligeiramente menos difícil. Crianças que não teriam a menor chance de sobrevivência superam as expectativas uma vez tendo superado a seleção natural que a vida lhes impôs desde o nascimento.

Tudo o que é realizado aqui foi aprendido pela simples observação. Não há nenhum embasamento teórico ou algum tipo de ensinamento convencional prévio. Um funcionário hospitalar, profissionalmente diferenciado na sociedade local, recebe rendimentos mensais equivalentes a US$ 80.00. E exercem seu labor sem reclamar das horas de trabalho ou da quantidade de atividade concentrada nestas horas. Sempre com um sorriso no rosto executam suas atividades com uma invejável disposição, mesmo ao serem acordados todas as madrugadas, quando necessário, para os procedimentos de emergência.

Achávamos que viríamos ajudar. Mas ajudar como? Realizar cirurgias, procedimentos e curativos, organizar materiais, tratar complicações ou intercorrências que a vida gratuitamente lhes ofereceu, não foi nada quando comparado ao que recebemos.

Aqui é possível reconhecer o verdadeiro valor do individuo. As mulheres rezam aos seus deuses e entonam cantos de piedade ao serem anestesiadas para uma cesariana ou quaisquer outras cirurgias. Compreendem que a dor e o choro sem lagrimas não contribuem para esse evento fisiológico. A música em forma de oração em sua língua original transcende a ação analgésica e funciona como um pedido a Deus para que tudo corra bem, uma vez que as chances de sucesso são constantemente reduzidas. Durante os dias e noites, a cada duas horas a luz desaparece, mesmo durante as cirurgias. E dar a luz neste país é muito menos uma razão para estar feliz. A morte está muito mais presente do que podíamos imaginar. Nascer em Benin, longe de ser um privilégio, é um teste de sobrevivência, uma prova real das condições de seleção natural. No processo do nascer, esta é a melhor escola sobre o que não se fazer. Aqueles que superam o período da gestação e parto, logo aprendem a falta de carinho e amor por parte de todos. Aos missionários, coube a responsabilidade de fornecer a primeira experiência de respeito e atenção destes seres recém-chegados no mundo (talvez as únicas que virão a ter em suas sofridas vidas). Talvez tenhamos feito diferença na vida de um ou outro paciente, pela reanimação de uma criança que nasce sem atividade em seu coração, na prescrição de algum antibiótico diante de uma grave infecção, no banho de um paciente em pós operatório, na improvisação de técnicas que há muito tempo não utilizávamos. Mas muito menos do que gostaríamos, menos ainda do que pudemos. Morrer faz parte da vida do individuo. Aqui vive-se como se não houvesse o amanhã e, se houver, quem pode imaginar como será.

Ao caminhar pelas enfermarias, os pacientes seguem os passos dos que passam em avaliação. Os que não passaram por procedimentos imploram por serem examinados também. Sem entender uma só palavra que podíamos dizer, a letra universal do olhar e do sorriso era suficiente para que compreendessem que tudo estava bem.

Aqui aprende-se a aprender.... aprender sobre a vida e a falta dela. Aprender que nossas conhecidas dificuldades são irrisórias diante das dificuldades que acometem nossos irmãos do outro continente. Aprender a se constranger diante dos problemas alheios, quando olhamos com os olhos da alma as dores vividas sem lágrimas.

Aqui aprendemos que segurar uma mão tem mais valor que um remédio, que tocar o rosto significa "eu me preocupo com você", independente da língua. Aqui no Benin, conhece-se o verdadeiro significado da doação, da abnegação, da caridade. Mas não ao que achávamos que estaríamos proporcionando, mas ao que nos foi oferecido. As doações foram para os missionários... doação de olhares, sorrisos brancos, confiança, respeito e exemplos de educação. A abnegação a todas as necessidades materiais por simples falta de opção nos fazem refletir sobre nossos anseios e planos futuros. Mas foi a caridade intensa que mais nos chamou atenção, pois tínhamos a falsa impresso que nós a realizaríamos, mas fomos nós que recebemos. Afinal, nossas habilidades profissionais ou os insumos materiais que tínhamos a oferecer jamais pagariam pelo valor dos ensinamentos morais e reflexões que nos fizeram exercitar.

Aqui aprende-se que o certo deve ser feito pelo simples prazer de fazer o nosso melhor. Aqui aprende-se que a alegria é uma condição humana subestimada pelo nosso consumismo ocidental. A opção de sofrer não nos cabe mais, pois felicidade não é a ausência de problemas e sim a forma como lidamos com eles.

Uma missão no Benin é experiência para aqueles que conseguem gostar do que fazem e não, simplesmente, fazem o que gostam. E, talvez, este seja o segredo para nossa felicidade, vivendo como se não tentássemos resolver todos os nossos problemas.

No Benin aprende-se que isto é impossível, pois os problemas nunca cessarão. O verdadeiro caminho está na forma com que lidamos com eles. A ciência existe para ser seguida onde ela pode ser praticada. Afinal, nós, como cuidadores do corpo, não temos nenhum poder sobre a vida ou a morte, mas nossa capacidade de acalentar uma alma que chora de dor é maior do que podemos imaginar. As leis da caridade podem e devem ser praticadas por todos os cantos. Encarar as dificuldades como oportunidades de nos melhorarmos e crescermos moral e socialmente, seja talvez o grande segredo para a evolução do ser humano. Aqui chegamos com as mãos cheias de doações materiais. Agora retornamos com os corações carregados de sentimentos e emoções, repletos de gratidão e com a certeza que o mundo pode ser melhor, se olharmos para nossos irmãos com compaixão e resignação. Em algum momento partimos com a certeza que muito pouco de nós ficou, mas um Benin inteiro volta conosco. Seria impossível não mudar nossas formas de encarar a vida, depois de presenciamos a vida daqueles que lidam diariamente com a certeza da morte próxima. A experiência vivida nesta missão é uma história marcada em nossas almas e registrada no íntimo de nossos corações... é uma experiência para aqueles que conseguem enxergar além do que os olhos permitem ver, além de ter sido uma fantástica aventura de reflexão a respeito da dor e do amor. Que Deus e seus anjos consoladores envolvam cada uma das almas que aqui ficarão, aguardando esperançosos pela próximos missionários da ONG Sementes da Saúde – Missão Benin.

Dr. Rodrigo Dias Nunes