Opinião do associado: Kate Middelton - do Parto Real em Londres à realidade do parto no Brasil

Eu não estava lá. Nem você. Acho que não seria exagero dizer que (quase) a totalidade das pessoas que escreveram sobre o assunto também não acompanhou o nascimento do terceiro filho da princesa de Cambridge. Quiçá um ou outro estivera em Londres, em algum momento da vida, conhecendo o modelo de assistência obstétrica prestado no país. Então, divagamos sobre o que nos foi ou é contado. 

Alvoroço provocado pela mídia frente a via de parto e alta precoce da princesa me motivaram a buscar alguma informação sobre. 

Notícias veiculadas nos mais diversos meios descrevem a estrutura da assistência pública obstétrica londrina como centrada na figura das midwives, enfermeiras especializadas que prestam atendimento durante o pré-natal, parto e puerpério, período no qual mãe e bebê passam a receber visitas domiciliares. Cabe ao médico obstetra o acompanhamento das gestantes de alto risco e a intervenção em casos de complicações.

Um sistema bem estruturado, nada personalizado e 100% gratuito. Um fluxo simples. Suspeita que está grávida? Vá ao posto de saúde do seu bairro para fazer exame de sangue. Gravidez confirmada? Aguarde ser chamada para a primeira consulta com a midwife, a qual ocorre entre 8-10 semanas, no máximo 12. Ultrassonografia? Apenas as necessárias, sexo do bebê não é prioridade. Consultas? Mensais até 36 semanas e quase sempre com uma midwife diferente. Parto? Também com elas, de preferência vaginal e o mais natural possível. Cesariana não é escolha, é necessidade, momento no qual entra em cena a figura do obstetra.

Perfeito na teoria. Tão perfeito que estou escrevendo e imaginando Kate Middelton indo ao posto de saúde do bairro para coletar exames de sangue e iniciar o pré-natal…

É informação suficiente, mesmo que superficial, para afirmar que estamos a anos-luz desse modelo público de assistência obstétrica.
Por aqui, as dificuldades já começam no pré-natal. Faltam profissionais e exames básicos. É difícil conseguir a primeira consulta. Ora a paciente é vista por um ora por outro profissional, quase todos sem experiência em obstetrícia… ora não é vista, não é orientada, não é ouvida.
Lotam-se as emergências obstétricas com problemas ambulatoriais facilmente resolvidos se não fosse um acompanhamento pré-natal precário. Ultrassonografia? Às vezes, nem as estritamente necessárias.

Chegada a hora de nascer, gestante e acompanhante nunca ouviram falar sobre os benefícios e riscos de cada via de parto e nem de longe conhecem o processo fisiológico do parto vaginal e a natureza cirúrgica da cesariana. Sabem o que foi contado pelas mães, avós, amigas, comadres…

O trabalho de parto permanece focado na dor e no sofrimento e prevalece a premissa construída ao longo do tempo de que “parto vaginal é coisa de pobre” e “cesariana coisa de rico”. Não é raro escutarmos pessoas da comunidade dizendo que “no SUS as mulheres são obrigadas a ter parto vaginal” e que médicos “forçam o parto normal fazendo cesariana apenas em último caso”. Não seria igualzinho em Londres?
Na maioria das maternidades públicas não temos conforto nem privacidade. Pacientes dividem o mesmo quarto quando têm sorte de não ocupar macas nos corredores, cadeiras ou até colchões no chão.

Quem dera tivéssemos disponível para todas as nossas parturientes métodos não farmacológicos para alívio da dor e para estímulo à progressão do trabalho de parto. Tenho 2 bolas, 1 chuveiro, 4 quartos, 1 obstetra, 1 enfermeira e 2 técnicas de enfermagem para 10 pacientes. Conta simples, que não fecha. Não dispomos de analgesia de parto nem de óxido nitroso. Nossas parturientes gritam por cesariana.
Um cenário difícil no qual operamos, todos os dias, verdadeiros milagres. Reveza-se a bola e o chuveiro, nasce o bebê de uma e logo outra deita no leito porque essa uma que nasceu agora já pode ficar no corredor.
E se não bastasse nossas dificuldades estruturais nos falta também equilíbrio. De um lado, no auge da moda e em busca de um nicho de mercado, ativistas do parto vaginal a qualquer custo; do outro, obstetras que ainda indicam cesariana porque o “cordão está enrolado no pescoço”, “porque a bacia é estreita”, “porque você não vai ter dilatação, o colo está duro e fechado”, “porque 40 semanas é o limite”…

É preciso mais que “emponderar” nossas mulheres, precisamos transformar a cultura do nascimento. Temos muito a pensar, modificar, evoluir e orientar antes de pensarmos em parto vaginal para todo mundo com alta tão precoce quanto 6 horas. Ouso dizer que hoje é possível apenas para uma minoria elitizada com condições para acompanhamento personalizado e rigoroso, bem pago. Para a massa, definitivamente não.

Por fim, não sejamos inocentes a ponto de acreditar que “plebéias”, mesmo que em Londres, tenham assistência obstétrica como a da princesa, cujos holofotes do mundo foram direcionados à família real no momento do nascimento dos seus três filhos. Similar talvez, igual nunca. Nem lá, nem aqui, nem em qualquer outro lugar do mundo.

Opinião do Associado - Andressa Biscaro